Firma Casa Paper 6ª ed. – Novo De Novo / Firma Reconhecida

O inesperado como método

Em vez de impor uma forma ao metal, Oskar Zięta cria as condições para que ele responda ao processo. Dessa relação entre engenharia, arte e design nascem suas peças.

 

O novo nem sempre surge de um material inédito. Às vezes, nasce de uma nova maneira de olhar para o que já existe. É essa ideia que orienta o trabalho de Oskar Zięta. Engenheiro, arquiteto, designer e fundador do Zieta Studio, em Wrocław, na Polônia, ele estuda há mais de duas décadas o comportamento dos metais e os limites dos processos de conformação. Embora o aço ocupe um lugar central em sua pesquisa, seu repertório também inclui o alumínio e o cobre.

Dessa pesquisa nasceu a FiDU – sigla de Freie Innendruck Umformung, expressão alemã para conformação livre por pressão interna –, tecnologia que transforma chapas metálicas planas em estruturas tridimensionais, leves e resistentes. Foi justamente naquilo que a engenharia convencional classificava como erro que Zięta encontrou uma nova linguagem de criação. As deformações imprevisíveis nas bordas deixaram de ser defeitos a corrigir e passaram a participar da forma, conferindo identidade própria a cada peça.

Entre objetos, espelhos, esculturas e instalações, Zięta trabalha em um campo no qual cálculo e experimentação caminham juntos. Na FiDU, a técnica determina os parâmetros, mas permite que o metal responda segundo sua própria lógica. É o que define como uma “perda de controle controlada”: o processo estabelece as condições, enquanto o inesperado participa da forma.

Representado no Brasil pela Firma Casa, Zięta compartilha com a marca o interesse pela inovação, pela execução precisa e pelo valor cultural dos objetos.

 

Seu trabalho parte de materiais há muito tempo conhecidos pela indústria – especialmente o aço –, mas chega a resultados sempre surpreendentes. O que significa criar algo verdadeiramente novo?

A criação é um processo. Criar “algo verdadeiramente novo” consiste em revelar um potencial que sempre existiu, mas permaneceu invisível. É por isso que digo que não esculpo com um cinzel, mas com informação e processo. O “novo” raramente começa com um material novo, mas com uma nova pergunta dirigida a algo que já conhecemos.

O aço acompanha a civilização há séculos. Paradoxalmente, essa familiaridade muitas vezes nos impede de enxergar todo o seu potencial. Nunca me interessou inventar o material em si. Sempre me interessou descobrir novas maneiras de fazê-lo se comportar – inicialmente, em aplicações industriais e arquitetônicas.

 

Acredita que a inovação nasce mais do processo e do olhar do que da novidade da matéria-prima?

Inovação não significa simplesmente acrescentar algo novo ao mundo. Ela surge, sobretudo, do conhecimento, da paciência e da observação cuidadosa.

Os materiais têm sua própria intuição, suas propriedades físicas e seu caráter – qualidades que podemos descobrir e reinterpretar continuamente. Essa é a base da FiDU, processo desenvolvido pelo estúdio e frequentemente descrito como uma “perda de controle controlada”.

O material recebe parâmetros específicos e controlados, mas o resultado final do processo de design torna-se sua própria resposta. É por isso que cada objeto FiDU apresenta deformações únicas ao longo de suas bordas – quase como uma impressão digital do próprio metal.

 

A tecnologia FiDU surgiu durante uma pesquisa em engenharia. Em que momento percebeu que aquele experimento poderia deixar de ser uma solução técnica para se tornar uma linguagem de design?

A tecnologia FiDU teve início em minha pesquisa de doutorado na ETH Zurique, onde investiguei o desenvolvimento de uma tecnologia para estabilizar membranas finas de chapa metálica. Ali, deparei-me repetidamente com o chamado “erro” DIN 8580. Para um engenheiro convencional, ele representava deformação incorreta, um equívoco, um resultado inaceitável do processo.

Mas eu me fascinava por algo completamente diferente: o fato de que esses supostos erros estavam criando estruturas ultraleves capazes de se adaptar com precisão às formas projetadas.

Como engenheiro, eu buscava eficiência estrutural. Como designer, de repente descobri a beleza escondida no próprio processo. O mesmo experimento que produzia conhecimento técnico também começou a despertar emoções. Foi nesse momento que a FiDU deixou de ser apenas uma tecnologia e se tornou uma linguagem de criação.

 

O que acontece quando o designer aceita que o material também participe das decisões?

Há vinte anos, ao conformar elementos por meio de pressão interna, aprendemos com esse chamado “erro”. Com base nas propriedades que observamos, criamos nosso próprio Alfabeto FiDU, isto é, um repertório de soluções que usamos para desenvolver novos objetos, produtos e aplicações tecnológicas na indústria ultraleve, na nova mobilidade e na arte.

O controle é importante. Mas o controle absoluto raramente leva à descoberta. O momento mais interessante acontece quando se compreende o processo com profundidade suficiente para permitir que ele nos surpreenda.

Na FiDU, a pressão se torna coautora do objeto. O material responde de acordo com sua própria lógica. Projetamos as condições, mas não determinamos cada milímetro do resultado. A forma é criada com ele. Costumo dizer que, se tentássemos projetar com precisão cada deformação das bordas, elas perderiam justamente a qualidade que as torna belas.

 

Em um mundo que busca padronizar tudo, qual é o valor da imperfeição e da singularidade?

Eu não chamaria isso de imperfeição. Na natureza, não existem duas folhas idênticas e, ainda assim, ninguém considera isso um defeito. Cada objeto FiDU preserva a memória de seu próprio processo de criação. Essas diferenças são evidências da vida escondida no próprio processo.

A produção industrial nos ensinou a admirar a repetição e a precisão. O que torna um objeto valioso está também na história de como essa forma surgiu.

 

Metais como o aço costumam ser associados à rigidez e ao peso. Seu trabalho revela leveza, fluidez e formas orgânicas. Você se interessa por desafiar aquilo que acreditamos já conhecer sobre um material?

De fato, normalmente associamos o aço ao peso, à dureza, à perfeição e à estabilidade. No entanto, estão escondidos nele a suavidade, a flexibilidade e o movimento. Interessa-me revelar qualidades que ninguém espera desse material.

Em determinado momento, o aço começa a se comportar quase como um organismo vivo. Às vezes, eles se assemelham a balões, como o nosso icônico banco Plopp, frequentemente comparado a um brinquedo inflável. Um verdadeiro manifesto dessa filosofia é a Ultraleggera, com 1.660g, a cadeira de alumínio mais leve do mundo, que pode ser erguida com um dedo e, ainda assim, suportar uma carga de quase duas toneladas.

 

Seu estúdio reúne engenharia, arte, arquitetura e pesquisa em um mesmo processo. Essas fronteiras ainda existem ou o design contemporâneo exige um pensamento cada vez mais híbrido?

Hoje, a inovação raramente surge de uma única disciplina. As perguntas mais fascinantes aparecem entre elas. Um artista faz uma pergunta, um engenheiro faz outra e um arquiteto aborda o mesmo desafio a partir de uma perspectiva diferente. Reunir esses pontos de vista não os enfraquece – fortalece-os.

O Zieta Studio é um espaço onde opera uma máquina híbrida de design, desenvolvimento, pesquisa e produção. Essa abordagem híbrida é, na minha opinião, fundamental para pensarmos o futuro, especialmente em uma era na qual muitos campos estão sendo transformados pela robótica e pela inteligência artificial. Não devemos apenas nos adaptar a essas tecnologias, mas aprender a colaborar com elas.

 

Depois de mais de duas décadas investigando o comportamento dos metais e os processos de conformação, o que esses materiais ainda conseguem ensinar a você?

Humildade. Cada experimento responde a uma pergunta e cria outras cinco. Os materiais nunca podem ser plenamente compreendidos. Cada nova escala, geometria ou aplicação revela comportamentos dos quais antes não tínhamos conhecimento.

 

O mundo voltou a enxergar valor no que já existe. Você acredita que o futuro do design passa menos por criar novos materiais e mais por descobrir novas possibilidades para aqueles que já conhecemos?

Acredito que o futuro pertence ao uso inteligente dos recursos, não ao excesso. Não precisamos necessariamente de novos materiais. Precisamos de mais imaginação. É por isso que seguimos o princípio de que “menos é menos”. Se pudermos tornar os materiais existentes mais leves, mais eficientes, mais fáceis de reciclar e capazes de cumprir múltiplas funções, criaremos um futuro mais sustentável do que aquele baseado na invenção constante de novas substâncias. A inovação deve ampliar as possibilidades e, simultaneamente, reduzir o consumo.

 

O Zieta Studio costuma afirmar que “menos peso significa mais possibilidades”. A leveza é apenas uma característica estrutural ou também uma maneira de pensar o futuro do design?

É exatamente isso que “menos é menos” significa para nós. A ultraleveza é a nossa filosofia. Significa usar a quantidade de material que é realmente necessária, reduzir custos de transporte, de energia e de estruturas que alcançam maior estabilidade com menos recursos.

A leveza não é apenas uma propriedade física. É uma maneira de pensar: retirar o que é desnecessário e preservar – ou até ampliar – o potencial.

 

Seus espelhos, esculturas e objetos nunca refletem o ambiente da mesma maneira. Como você enxerga essa relação entre objeto, espaço e pessoa?

Uma obra nunca está completa sem o seu entorno. Ela é transformada pela luz, pela arquitetura e pelas pessoas. Quando são instaladas em espaços públicos, as esculturas de aço polido absorvem em suas superfícies a natureza, as mudanças das estações, as nuvens e a luz do sol. Às vezes, tornam-se elementos dominantes no espaço; em outras, dissolvem-se conscientemente no entorno. Tornam-se espelhos de momentos passageiros.

 

Em uma época marcada pela velocidade e pelas tendências, seu trabalho é resultado de anos de experimentação e refinamento. Qual é o papel da persistência no processo criativo?

A persistência provavelmente é mais importante do que o talento. A pesquisa exige tempo porque os materiais não revelam seus segredos imediatamente. As pessoas veem o objeto finalizado. Raramente veem os milhares de experimentos escondidos dentro dele.

Um exemplo perfeito é a cadeira Ultraleggera – um projeto que desenvolvemos durante cinco anos, reduzindo radicalmente seu peso e mantendo sua resistência estrutural.

 

O Zieta Studio costuma dizer que não segue tendências, mas cria novas possibilidades. Como distinguir aquilo que é realmente novo daquilo que apenas parece novo?

Acredito que algo é verdadeiramente novo quando amplia os limites daquilo que somos capazes de fazer, técnica, cultural ou emocionalmente. As tendências mudam a estética. A inovação muda as possibilidades.

Quando um objeto apenas parece diferente, trata-se de moda. Quando muda a maneira como pensamos, projetamos ou vivenciamos o mundo, torna-se inovação. Para mim, a verdadeira medida do novo não está em sua aparência, mas nas novas perguntas e oportunidades que ele cria.

 

Se tivesse que escolher uma única peça do seu repertório para representar a ideia de Novo / de novo, qual seria e por quê?

Meu primeiro impulso seria responder: tudo. No entanto, ao pensar na ideia de “novo” em uma escala mais ampla, provavelmente escolheria Nawa, um pavilhão público de grandes dimensões criado em Wrocław.

Eu o escolheria também porque demonstra como tecnologia, escultura e espaço público podem se tornar um único organismo vivo, capaz de contribuir para a transformação e a revitalização de um lugar.

Nawa deu uma nova vida à esquecida Ilha Daliowa. Criada ao lado da arquitetura histórica da cidade, entrou em diálogo com o entorno e introduziu um “novo arco” – o arco FiDU –, que representa a evolução do primeiro perfil de aço laminado.

Nawa é um manifesto do potencial tecnológico, da transformação material e da transformação do lugar. Para mim, é exatamente isso que o “novo” deveria significar: mudar relações, e não simplesmente criar novos objetos.

 

Como começou a sua relação com a Firma Casa? O que significa para você ter seu trabalho representado no Brasil?

Acredito que nossa colaboração seja um diálogo natural baseado em valores compartilhados: inovação, artesania e a convicção de que o design tem o poder de moldar a cultura. Para mim, é extraordinário estar presente nas páginas do Paper da Firma Casa, em um continente distante, especialmente dentro da categoria “Novo”.

O Brasil me fascina há muitos anos por seu extraordinário legado modernista e por sua abertura à experimentação na arquitetura e no design. Por isso, a presença dos objetos Zieta no país é especialmente significativa para mim.

Ainda me lembro de como foi importante para nós participar, em 2014, da exposição The Spirit of Poland, no Museu Nacional da República, em Brasília. Era um lugar verdadeiramente excepcional, projetado pelo grande Oscar Niemeyer. Desde os tempos de estudante, sua Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida me inspira pela leveza, pelo dinamismo e pela ousadia das formas.

Essa inspiração desempenhou mais tarde um papel importante no desenvolvimento da série Steel in Rotation – uma jornada que encontra agora sua síntese mais abrangente na escultura Hempel, homenagem ao pensamento estrutural polonês, à icônica Iglica [monumento de aço em forma de agulha erguido em Wrocław] e ao legado de Stanisław Hempel.

 

Leia a versão completa! Firma Casa Paper Ed.06 – Novo / De Novo 

Olá! Preencha os campos abaixo para iniciar uma conversa com o whatsApp