Firma Casa Paper 6ª ed. – Diálogos e Design

Formas que atravessam o tempo

Artista visual e designer, Mônica Ventura aproxima ancestralidade e presente por meio da materialidade, dos processos manuais e do conhecimento construtivo vindo do design.

 

Mônica Ventura se define como artista visual e designer. Formada em Desenho Industrial pela FAAP e mestre em Poéticas Visuais pela ECA-USP, ela trabalha no território em que essas áreas se encontram. O design oferece a estrutura: precisão, conhecimento dos materiais e atenção ao espaço. Na arte, aborda as relações entre o feminino, a racialidade e a memória. É nesse equilíbrio entre concepção, matéria e execução que sua arte se aproxima do olhar da Firma Casa em relação à criação autoral.

A partir de sua formação, Mônica reinterpreta técnicas construtivas, materiais naturais e modos de fazer preservados por diferentes culturas. Cabaças ganham novas formas em vidro e latão; terra e sisal compõem instalações apresentadas recentemente na SP-Arte e em sua primeira individual na galeria Nara Roesler, em São Paulo. Em cada obra, referências ancestrais são trazidas ao presente de forma contemporânea.

Contemplar as estrelas. Trabalhar a terra com as mãos. Cozinhar. Repetir pacientemente um gesto. Segundo a artista, cultivar essas práticas preserva conhecimentos que o ritmo atual costuma afastar do cotidiano e alimenta seu processo criativo.

A ancestralidade, porém, não encerra o tema das obras; ela oferece uma linguagem para tratar de questões que a artista julga fundamentais. “Trago assuntos contemporâneos, mas a tradução visual é feita a partir dessa estética ancestral”, explica. Terra, fibras naturais e técnicas vernaculares dão corpo a um estudo sobre identidade, poder e experiências de mulheres negras.

Essa relação marca também a sua própria história. Em 2015, Mônica começou a investigar seus antepassados. Mulher negra brasileira, ela observou os cruzamentos entre matrizes africanas, indígenas e europeias que a constituem. A busca pessoal a aproximou de culturas pré-coloniais e arquiteturas vernaculares afro-ameríndias, que passaram a integrar suas referências.

 

O desenho como estrutura

Mas antes dessa pesquisa, veio o design. Foi no curso de Desenho Industrial que a artista encontrou uma maneira de organizar o pensamento e compreender o comportamento dos materiais. “Me forjei no design”, observa. Nas oficinas da universidade, transitou entre cerâmica, madeira e metal, enquanto a história da arte ampliou seu repertório teórico. A geometria, o desenho técnico e a experiência em diferentes técnicas manuais deram a base para seu modo de projetar.

Ainda na graduação, ela passou a estudar os limites entre artesanato e produção industrial. O interesse pelo “savoir-faire” a levou às biojoias produzidas no Amazonas, ao látex e ao biodesign. E mais: esse aprendizado a conduziu para formas de criar com menor impacto ambiental. Por isso, Mônica se voltou a modos de construção que usam recursos do entorno e materiais capazes de retornar à natureza.

Foi assim que chegou às fibras naturais e à terra, que se tornou um elemento central. Ela surge crua e compactada na taipa de pilão, moldada como barro ou transformada pela queima. Palha de buriti, juta e metais completam o vocabulário material.

“Em algumas obras, o processo pede paciência e o mesmo movimento, refeito várias vezes. Para criar volume com a palha de buriti, por exemplo, é preciso separar cada mecha, prendê-la ao sisal e repetir até chegar ao desenho desejado. Esse fazer está relacionado à permanência, meditação, presença”, explica.

A mão e a máquina

Para Mônica, a manualidade importa tanto quanto o resultado. Uma peça feita à mão pode se aproximar visualmente de outra criada por uma máquina, mas o percurso não é o mesmo. “Há algo que fica impresso em quem vive o processo”, constata. “Quando a execução se torna rápida demais, perde-se o elo afetivo entre quem ensina, quem aprende e a matéria.”

A memória do fazer acompanha a obra para além do ateliê. Ao entrar em uma casa, ela passa a conviver com outros objetos e histórias. É nesse prolongamento que Mônica aproxima criação e colecionismo: reunir obras de artistas de origens e perspectivas diversas contribui para construir uma narrativa mais plural.

 

Forma primordial

Nas esculturas, essa continuidade se manifesta também em símbolos ligados à prosperidade e à abundância. Criadas para conviver com o espaço e com quem as recebe, algumas de suas peças incorporam, por exemplo, o dourado para remeter à riqueza e provocar sensações positivas.

As cabaças expressam essa intenção. Comum na cultura popular, o fruto tornou-se uma “obsessão” em seu trabalho. A artista vê em sua silhueta uma ligação entre passado e presente. “Seu invólucro fechado atravessou continentes levado pelas correntes marítimas e carrega uma força de comunicação entre tempos e gerações”, comenta.

Em suas obras, a cabaça aparece preservada no aspecto natural ou transformada por diferentes técnicas. No latão dourado, surge por meio do repuxo; no vidro soprado, mantém a silhueta e reforça as relações entre interior e exterior, abertura e proteção. “Ela continua reconhecível, mas nunca igual”, conclui Mônica, que não cansa de revelar o novo de novo, de novo…

Entre lembranças

Um saber recebido: desenhar no chão.
Um cheiro da infância: flor de laranjeira.
Uma lembrança de família: o almoço.
Um objeto cheio de memória: um vaso.
Um lugar que a conecta às suas raízes: a Bahia.
Uma tradição que cultiva: cozinhar.
Um ofício que merece ser preservado: o dos artesãos, pela maestria de criar com as mãos.
O que nunca deixa de ser novo: o ar.

 

Leia a versão completa! Firma Casa Paper Ed.06 – Novo / De Novo

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