Firma Casa Paper 5ª ed. – Perspectivas Particulares / Firma Reconhecida

28 de abril, 2026

Ruy Ohtake em casa

A Firma Casa relê e reedita peças de Ruy Ohtake, com a orientação de seu filho, o arquiteto Rodrigo Ohtake. Estrutura, curva e proporção aparecem em escala doméstica, com o traço inconfundível de um nome que marcou a arquitetura brasileira contemporânea.

Mesa Origami Circular (1996): feita de aço carbono com pintura automotiva


Há peças que não dependem de época para fazer sentido. No mobiliário assinado por Ruy Ohtake (1938-2021), a força está no essencial, na estrutura aparente, nas curvas com intenção – um desenho que se reconhece de longe. Durante anos, esse repertório existiu mais como arquivo e memória do que como coleção contínua e disponível.

Para tirá-lo novamente do papel, Rodrigo Ohtake entendeu que a Firma Casa era o lugar natural para isso acontecer. A seleção de peças foi feita com total respeito aos desenhos originais, porém com espaço para novas escolhas que atualizam sem alterar o traço de Ruy.

É nesse caminho que a mesa Origami, de 1996, concebida para ser de metal, ganha também uma versão em madeira. Aliás, “essa foi uma sugestão da Sonia Diniz Bernardini, amiga de longa data do meu pai”, conta Rodrigo, que ressalta: “mas tivemos o cuidado de executar exatamente como está no desenho técnico que ele deixou”.

Confira a entrevista que Rodrigo concedeu ao Paper, para falar, entre outros temas, do lançamento das três peças – mesa Origami, quadrada e redonda, e banco Ito –, durante a 22ª edição da SP-Arte 2026, no espaço da Firma Casa, entre 8 e 12 de abril.

 

Como foi a sua aproximação com a Firma Casa?

Começou por admiração. Eu sempre admirei muito a Firma Casa e o trabalho da Sonia. E havia uma história anterior, porque ela e meu pai eram amigos de longa data. O que faltava era transformar essa proximidade em um processo viável e contínuo.

Por que as peças do Ruy não entraram antes em um circuito mais regular?

Porque ele nunca levou o design de mobiliário como negócio. Ele desenhou muita coisa, deixou material técnico, peças catalogadas, mas não tinha paciência para tocar essa frente. Em algum momento, eu decidi assumir isso como projeto.

Como foi a decisão de assumir a orientação dessa releitura?

Eu sempre tive um lado de designer também. Em 2020, sentei com o Ruy e falei que a gente poderia levar isso adiante. Ele disse que não tinha paciência e me perguntou se eu queria fazer acontecer. Aí eu comecei devagar. Mas, devido ao falecimento dele, em 2021, isso foi interrompido por um tempo, porque eu precisava tocar o escritório. Mais recentemente, voltei a dedicar tempo a esse projeto e hoje existe uma equipe voltada a desenvolver peças novas e também antigas.

Como você e a equipe da Firma Casa chegaram às peças que agora são reeditadas e qual foi o critério de escolha?

A curadoria foi da Sonia, e isso fez diferença. Elas têm um olhar muito claro para o que faz sentido dentro do acervo da Firma Casa e para o uso real da peça. Do meu lado, eu queria preservar a simplicidade e a originalidade do desenho, aquela lógica direta, quase de corte e dobra. Tem um lado fabril racional, mas com assinatura forte.

Como nasceu a versão da mesa Origami em madeira?

Foi uma vontade da Sonia. Em 1996, o Ruy desenhou a mesa para ser em metal e a versão em madeira nunca tinha sido executada. Agora, décadas depois, a ideia fez sentido. A mesa quadrada é de madeira e a redonda de aço. São leituras que respeitam o desenho original.

Mesa Origami Quadrada (1996): disponível em chapa de aço carbono com pintura automotiva ou MDF com laminado de madeira freijó clara

O que a curadoria da Firma Casa trouxe para o processo?

A Sonia tem um olhar muito preciso da direção que quer em termos de uso, materiais, aspectos conceituais e também comerciais. E esses elementos não são fáceis de conciliar. A sugestão da madeira veio dela. E o mais importante é quando essa troca acontece de um jeito aberto, gostoso, sem preconceito. Isso melhora o processo e dá segurança para decidir.

Como vocês garantem fidelidade nas reedições?

O meu pai deixou material técnico, não apenas croqui. Então, dá para reproduzir de uma maneira totalmente fidedigna aos desenhos originais dele.

E o banco Ito, qual é a história dele?

Ele foi criado para o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Nunca foi comercializado; foi produzido apenas para a instituição. O Ito traz elementos muito característicos do Ruy, como a curva, e também um trabalho de curvar MDF que, na época, diziam ser impossível ou muito difícil. O banco é curvado em MDF e folheado com freijó claro, nas mesmas medidas do original, que está no instituto.

Banco Ito (2013): executado em MDF curvado e laminado em freijó claro

O que você espera que essas peças provoquem nas casas de seus compradores?

É bacana conseguir levar a arquitetura do Ruy para outros lugares. São móveis em que você enxerga uma lógica arquitetônica. Quando eles entram na casa das pessoas, é uma maneira de a arquitetura dele ficar mais próxima, sem ser a própria arquitetura construída. Isso cria presença no cotidiano.

Você é neto de Tomie Ohtake, um nome fundamental da arte brasileira. O que dessa herança entra no seu jeito de criar?

Eu cresci cercado de forma e matéria como linguagem. A Tomie tinha uma relação muito forte com cor, gesto e presença. Isso entra no meu repertório de um jeito quase silencioso. E é bonito ver como, em escalas diferentes, arquitetura, arte e objeto podem conversar.

Como você define seu trabalho e do escritório hoje?

Eu brinco que é um jovem escritório de 60 anos, com muitas obras construídas. E, ao mesmo tempo, um escritório que sempre olhou para o futuro. Hoje, existe um time de criação, mais descentralizado, trabalhando em múltiplas escalas, do objeto à cidade. Criar é o que eu mais gosto de fazer.

Rodrigo Ohtake: “Cresci cercado de forma e matéria como linguagem.”

Bate-bola

Um arquiteto que você admira: “Frank Gehry, que projetou, entre outros, o Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha.”

Um designer que te interessa no momento: “Irmãos Campana.”

Um artista que influencia seu jeito de pensar a forma: “o músico e  compositor Max Richter, porque a obra dele desestrutura a percepção e inspira o jeito como penso ritmo, tensão e construção no espaço.”

Um detalhe que você nunca negocia num projeto: “a curva, porque é assinatura do escritório e precisa estar presente.”

Um livro que te marcou: “Demian, de Hermann Hesse.”

Um filme que você sempre recomenda: “São Paulo, S.A., dirigido por Luís Sérgio Person.”

Uma cidade que afia o teu olhar: “Cidade do México, pelo diálogo intenso entre passado e futuro, sem negar a própria cultura.”

Um projeto seu de que você mais se orgulha: “meus filhos.”

Um lugar para o qual você gosta de voltar: “a Casa Tomie Ohtake, por tudo o que representa e, principalmente, por ser um lugar de afeto.”

 

Leia a versão completa da 5ª edição do Firma Casa Paper! https://heyzine.com/flip-book/firmacasapaper05

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