Firma Casa Paper 5ª ed. – Perspectivas Particulares / Diálogos e Design

28 de abril, 2026

Exercícios de perspectivas


Fundadora da SP–Arte, Fernanda Feitosa criou uma feira que se tornou um dos encontros mais relevantes do calendário cultural da América Latina. Entre arte e design, seu trabalho é construir contexto para o público olhar de perto, formar gosto e reconhecer diferenças.

Fernanda Feitosa trata a arte como exercício de olhar, não como um assunto distante, reservado a iniciados, mas como algo que reorganiza a forma de perceber o mundo. “A arte me ensinou a ver diferentes pontos de vista”, observa. Para ela, esse aprendizado não é abstrato; é prática, um jeito de permanecer em movimento, de não aceitar o previsível como norma. “Acho que a arte ajuda a me manter atenta a outras realidades, a outras culturas, a outros lugares.”

A partir da visão da fundadora, ao longo de duas décadas, a SP–Arte ajudou a ampliar o repertório do público. A cada edição, a feira foi desenhando uma espécie de mapa vivo do que circula, do que muda e do que permanece. Como a própria Fernanda resume, “não há uma coleção de arte ou de design que seja igual à outra”. Cada um escolhe um recorte e, com ele, revela um pouco de si por meio das obras e objetos com os quais convive.

 

Curadoria que não vira gosto pessoal

Quando Fernanda fala de curadoria, ela retorna à ideia de não estreitar o mundo. A feira não pode ter o tamanho do gosto de quem a organiza. “O que eu gosto não é o que você gosta”, resume. A frase é clara e funciona como regra do jogo. “O papel de quem monta a SP–Arte é garantir rigor sem transformar a seleção em assinatura pessoal. Minha função é criar um campo comum onde várias perspectivas possam existir, sem que uma apague a outra.”

Essa lógica tem tudo a ver com perspectivas particulares. O que interessa é a soma de olhares e o atrito saudável entre eles. “É nessa diferença que o público se aprimora. A feira ganha energia porque não se limita a confirmar um gosto; ela amplia”, afirma.

 

Arte e design juntos

O design entra nessa conversa como parte do todo. Fernanda conta que, desde o início da SP–Arte, tentou separar arte e design mais de uma vez, buscando formatos distintos. Até perceber que algo se perdia quando cada linguagem era apresentada em um tempo diferente. “A feira não seria completa se eu não conseguisse trazer os dois juntos no mesmo momento”, ressalta. A conclusão veio com clareza, conforme o evento foi amadurecendo. “Hoje, o design é uma parte estruturante da feira.”

Quando o design aparece junto, ele muda o ritmo do olhar. Aproxima o corpo do objeto, traz escala doméstica, faz a experiência descer do discurso para a matéria. “A conversa entre galerias de arte e de design fica mais natural, e o público entende, na prática, que as linguagens se cruzam”, explica.

É nesse contexto que Fernanda faz questão de lembrar a presença da Firma Casa. Ela cita a marca como participante desde a primeira inserção do design na feira, e reforça o papel de Sonia Diniz Bernardini: “Ela abriu caminho para o design contemporâneo brasileiro, inclusive em leituras internacionais, como nas parcerias com os irmãos Campana. É uma trajetória que ajuda a explicar como o design ganhou corpo dentro da SP–Arte, como linguagem e como mercado.”

O que fica quando a feira termina? Talvez essa seja a questão que mais interessa à Fernanda. Para ela, não se trata apenas do evento em si, mas do modo como ele altera a percepção de quem o visita. “A SP–Arte estimula a prática da atenção e perspectiva. A arte treina o ponto de vista. O design entra como presença cotidiana”, conclui. No fim, tudo é parte de um mesmo exercício: olhar com mais precisão, sem reduzir o mundo ao próprio gosto.

 

Coleção imaginária

Fernanda e sua família cultivam uma brincadeira que vira exercício de olhar: após visitar algum museu, exposição ou galeria, cada um faz a própria lista do que levaria para casa. A dela é direta, sem cerimônia. “Eu teria ‘Os Girassóis’, de Van Gogh. Teria um Munch, uma Tarsila do Amaral, uma Maria Martins… Teria um Campana… a lista não para, faltaria espaço para tudo o que eu gostaria de ter. Colecionar é algo que você pode fazer em qualquer idade, a vida toda. Não termina”, revela Fernanda em meio às peças da coleção de seu escritório, que guarda preciosidades assinadas por Paulo Pasta, Mário Cravo…

Fernanda Feitosa: “A arte me ensinou a ver diferentes pontos de vista.”

Foto direita: No escritório de Fernanda: tela de Paula Pasta e vaso Henry Dean.

Foto do meio: Fernanda e a sequência de fotos ‘Diálogo com Amaú’, de Miguel Rio Branco.      

Foto esquerda: Trenzinho, de José Antonio da Silva.

 

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